quinta-feira, 28 de maio de 2009
Uma pequena fábula...
Começou numa segunda-feira. Numa sala escura e quente, quarto pessoas sentadas ao redor de uma mesa de encaravam em silêncio, de vez em quando baixando os olhos para o intricado padrão entre eles. A tensão no ar era palpável. Um deles suava frio, na expectativa do que aconteceria a seguir.
Um dos sujeitos pôs um pequeno objeto entre os que já estavam lá. Subitamente, a garota à sua direita sorriu, radiante.
- Bati! – disse ela.
- E foi de carroça, seus patos! – falou o sujeito do outro lado da mesa. Os outros dois homens pareciam menos satisfeitos com o resultado.
- Assim não vale! – reclamou o rapaz mais velho – Filipe fica quebrando cada cabeça que eu levanto! Como é que dá pra jogar assim?
- Eu? E eu posso fazer o que? Eu fico tentando fazer Aninha tocar, mas ela sempre tem a peça certa!
- Aninha joga muito, rapaz. – disse o sujeito em frente à garota, começando a re-embaralhar as pedras. Seu nome era Rafael.
- Jogar bem, ela joga, – disse o sujeito mais velho, se largando na cadeira. Se chamava Adson mas eu ainda não entendo como apareceram nove senas nesse jogo. Se eu não conhecesse vocês, até diria que alguém está roub...
- Vocês aí atrás, dá pra parar? – Uma mulher chamou a atenção do pequeno grupo. Estava um pouco acima do peso. Se algum dia ela se adoentasse, a roupa preta que usava encontraria seu caminho sozinha para essa mesma sala. – Então, gente, – disse ela, voltando seu olhar para as outras pessoas presentes na sala – Espero que tenha ficado clara a maneira correta de se fazer a citação de uma revista digital publicada no estado americano do Texas em Agosto de 1995. Agora vamos entrar no assunto ‘‘revista digital publicada no estado americano do Texas em Setembro de 1995’’, começando pelo sub-tópico ‘‘nas quartas-feiras de lua cheia chuvosas’’. Então...
Na sala na frente dela, várias pessoas pesavam os pós e contras da existência e imaginavam qual seria o método mais indolor de desistir da mesma, e se perguntavam se seus familiares iriam sofrer muito com o processo.
Era um dia normal no Centro de Artes e Comunicação, ou pelo menos tão normal quanto possível: fortunas eram ganhas e perdidas em questão de minutos no grande jogo de apostas que era a máfia das Xerox; o ar possuía certa tonalidade ocre e um cheiro característico, e quem o respirava logo passava a falar lentamente coisas sem sentido; algumas pessoas faziam relatos dos vultos sombrios e dos sons estranhos que assombravam os banheiros e corredores. No entanto, naquele dia específico, algo estava fadado a acontecer. Algo grande.
Começou com um grito.
[Continua...]
sexta-feira, 22 de maio de 2009
NÃO ENTRE EM PÂNICO!
Ah, os gênios. Uma vez a cada dez gerações, mais ou menos, nasce alguém com a disposição, a criatividade e o talento pra reinventar toda uma área da existência humana (estejam esperando minha contribuição nesse sentido, nas livrarias, em breve). Ninguém sabe como eles são criados, – destino, genética, escolha divina, dizer ‘Alô Deni!’ na hora certa – mas permanece o fato que são estes os indivíduos que influenciam tudo aquilo que se segue a eles. Isaac Newton, Miguel de Cervantes, Leonardo da Vinci, Gandhi, Marcia Goldsmitch (‘Mexeu com você, mexeu comigo!’) e muitos outros.
Um dos tais sujeitinhos que mudou o rumo da literatura mundial nasceu na Inglaterra (grande parte desses X-Men da vida real nasceram por lá), no dia 11 de Março de 1952. Douglas Adams é o autor por trás da famosíssima série O Guia do Mochileiro das Galáxias, além de outros blá blá blá atuou junto com o grupo Monthy Python blá blá blá seu trabalho influenciou dezenas de escritores modernos blá blá blá ácido humor britânico blá blá blá, enfim, o cara escreve pra caralho. Vamos deixar de enrolação que isso aqui não é a TV Cultura.
Infelizmente, vida eterna não estava na lista dos super-poderes do Doug (sacou a intimidade?) e o cara faleceu em Maio de 2001, exatamente vinte anos depois da morte de Bob Marley, sob circunstâncias parecidas. Causas naturais contam como circunstâncias parecidas? Enfim, não existem provas que as duas mortes não estejam relacionadas, então eu só posso concluir que estejam. Teorias de conspiração à parte, o cara foi tão foda que criou-se um dia só pra celebrar a existência dele e de sua obra. Diga aê.
Próxima segunda-feira, 25 de Maio, é comemorado o Dia da Toalha. Não sei como é celebrado aqui no Brasil (imagino que provavelmente deve ter um pouco menos de cobertura da imprensa do que o Carnaval), mas lá nas Zoropa você vê um bando de malucos andando pela cidade o dia todo portando toalhas.
Pra você que não entendeu o motivo da homenagem (o que você está fazendo lendo esse blog?), o texto abaixo pode elucidá-lo:
“A toalha é um dos objetos mais úteis para um mochileiro interestelar. Em parte devido a seu valor prático: você pode usar a toalha como agasalho quando atravessar as frias luas de Beta de Jagla; pode deitar-se sobre ela nas reluzentes praias de areia marmórea de Santragino V, respirando os inebriantes vapores marítimos; você pode dormir debaixo dela sob as estrelas que brilham avermelhadas no mundo desértico de Kakrafoon;
Pode usá-la como vela para descer numa mini-jangada as águas lentas do rio Moth;
Pode umedecê-la e utilizá-la para lutar em combate corpo a corpo; enrolá-la em torno da cabeça para proteger-se de emanações tóxicas ou para evitar o olhar da Terrível Besta Voraz de Traal (um animal estonteantemente burro, que acha que, se você não pode vê-lo, ele também não pode ver você - estúpido feito uma anta, mas muito, muito voraz);
Você pode agitar a toalha em situações de emergência para pedir socorro;
E naturalmente pode usá-la para enxugar-se com ela se ainda estiver razoavelmente limpa.
Porém o mais importante é o imenso valor psicológico da toalha. Por algum motivo, quando um estrito (isto é, um não-mochileiro) descobre que um mochileiro tem uma toalha, ele automaticamente conclui que ele tem também escova de dentes, esponja, sabonete, lata de biscoitos, garrafinha de aguardente, bússola, mapa, barbante, repelente, capa de chuva, traje espacial, etc., etc.
Além disso, o estrito terá prazer em emprestar ao mochileiro qualquer um desses objetos, ou muitos outros, que o mochileiro por acaso tenha “acidentalmente perdido”. O que o estrito vai pensar é que, se um sujeito é capaz de rodar por toda a Galáxia, acampar, pedir carona, lutar contra terríveis obstáculos, dar a volta por cima e ainda assim saber onde está sua toalha, esse sujeito claramente merece respeito.”
- Douglas Adams, O Guia do Mochileiro das Galáxias
Enfim, longa vida a Douglas Adams. E pra quem não entendeu ainda, acho que já é seguro deixar claro: Escrevi esse post só pra diminuir a quantidade de olhares ‘‘WTF’’ que eu vou receber na segunda, quando chegar à faculdade com a minha.
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EDIT: Olha só, descobri que o dia 25 de Maio foi também o dia do lançamento do primeiro Star Wars, e é atualmente considerado o Dia do Orgulho Nerd. Por que estou sentindo esse misto estranho de satisfação, realização e um pouco de vergonha? Vai entender...
terça-feira, 19 de maio de 2009
Dilemas Existenciais...
Quem lê esse blog provavelmente sabe como é. A sensação é boa a princípio: afinidade de gostos, depois algumas conversas meio desinteressadas, logo os dois estão entretidos como a tempos não se viam.
Então vem a intimidade. Logo depois chega o prazer, para os dois. Você se sente o máximo quando percebe que causou a felicidade em alguém. Porque altruísmo é parte importante, claro. E por um tempo tudo são flores.
Depois de umas semanas ou meses as coisas começam a desandar. Aquilo começa a não te satisfazer mais. Parece que o altruísmo do início morreu de vez, e tudo o que sobra é aquele sentimento egoísta, e mais uma vez você se vê zangado com alguém por motivos aparentemente triviais. Jurou que não ia fazer isso de novo, mas olha, ai está você, com o telefone na mão, pedindo pra desfazer o engano todo.
Estou falando, claro, do empréstimo de livros.
Desafio qualquer um que mantenha uma coleção e tenha qualquer afeto razoável pela mesma a não sentir uma pontada ao ver aquele espaço vazio na estante, sem saber o que deveria estar ali ou onde o tal objeto fora parar, mais ou menos como o buraco de um dente permanente que você sabe que jamais crescerá de novo. Você os cria, os dá carinho e atenção, e, de uma hora pra outra, eles estão todos fora de casa, andando com livros mais velhos e mal-encarados, aparecendo com marcas estranhas e você sequer os reconhece mais. Livros são filhos desnaturados, são sim.
Acontece que é impossível negar o empréstimo de um livro. Não numa sociedade onde se tenta manter qualquer traço de estabilidade e confiança. Negar um livro é crime. Pecado. Você pode negar dinheiro para evitar estragar uma amizade, ou seu carro por medo de implicações jurídicas sérias depois, mas um livro? Não é alguma coisa que se gaste ou diminua de valor por uso constante (pelo menos para os menos perfeccionistas – mas eles que não vão tocar nos meus). Como você pode negar uma fonte de conhecimento e diversão? Eu achava que era seu amigo. Não me venha com ‘mas’, seu viado. Não, eu não quero seus pedidos de desculpa, seus jogos de computador, CDs do Pink Floyd ou uma noite com sua namorada. Você ousa me negar sua edição original do Nº 1 do Batman, nunca mais se considere sequer meu colega, quanto mais meu amigo. Que me importa a raridade, o preço ou o fato que eu vou querer comer pipoca amanteigada enquanto leio essa preciosidade? A negação do empréstimo é o declínio da sociedade. Se começarmos assim, em quanto tempo estaremos estacionando em vagas de deficientes, tocando fogo em mendigos no meio da rua ou chutando filhotinhos de cachorro? Tudo isso por causa dessa sua mania de super-proteção idiota. Vem cá, qual daquelas é a tua namorada mesmo?
E de repente, ali está você, olhando desolado para o vazio que costumava ser a sua coleção, uma variedade exótica de cores, cheiros e acessos de asma que você nunca mais verá a não ser nos cantos remotos de sua memória. E amaldiçoando sua fraqueza, sua incapacidade de se manter inabalável com um firme e sólido ‘não’.
